sábado, 11 de dezembro de 2010

É LENDA

Não acredito em grávidas que passam a gestação toda sorrindo, em paz com o mundo e se achando a mais linda e abençoada das criaturas. Com certeza é muito legal ter um serzinho crescendo dentro da gente, mas e os enjoos, as tonturas, os quase desmaios, a moleza, o cansaço, a preguiça, a vontade de nunca mais fazer nada na vida, o humor muito doido? Será que alguém é realmente capaz de passar ilesa por tudo isso? E as neuras? No começo, o único indício de que você está grávida é o seu mal estar. Daí, um belo dia a gente acorda sem enjoos e tonturas. Conclusão: deve ter alguma coisa errada. Dia seguinte acorda passando muito, muito mal. Conclusão: deve ter alguma coisa errada. Depois de um tempo a gente finalmente começa a sentir o bebê mexendo e acha que as nossas preocupações vão diminuir. Engano. Um dia mexe quase nada, outro dia mexe demais da conta. A conclusão? Só pode ter alguma coisa errada. E a responsabilidade? Exercício sim, mas sem se cansar demais. Alimentação saudável, com muita fruta e verdura, mas sem toxoplasmose. Cuidado pra não ficar doente, cuidado com o remédio que toma, com o creme que passa no rosto, com o colírio que pinga no olho, com os animais de estimação, com o sal, com o doce. Fica bem fácil. E acho tão engraçado quando, depois de tudo isso, vem o médico e fala “Sua gravidez vai muito bem. Vida normal pra você”. E eu sempre me esqueço de falar "Ei, quem disse que a minha vida normal é assim?".




P.S. Estou eu aqui só reclamando, mas devo dizer que adoro estar grávida. Apesar de, em certos momentos, parecer terrivelmente assustador, o fato de que uma pessoa completa está se formando dentro de mim e que de mim depende boa parte do sucesso desse empreendimento também me enchem de orgulho e felicidade e fazem com que eu adore as minhas tonturas, minha indisposição e todas as restrições que fazem parte da minha vida nesse momento.



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

UM ANO QUE EU NÃO QUERIA QUE ACABASSE

E não é porque ele foi maravilhosamente bom ou especial. Aconteceram, sim, coisas boas, muito boas. E aconteceram coisas não tão boas assim. Tudo, enfim, como costuma ser em um ano ou em um período de tempo qualquer. O motivo da minha resistência em deixar que ele se vá é a minha imensa dificuldade em lidar com mudanças. Sempre foi assim: todos os momentos que representaram mudanças mais intensas na minha vida foram vividos com uma boa dose de sofrimento. Mas eis que o tempo passou, eu tive uma filha e a maturidade pra lidar com essas situações... não chegou. Era essencial que tivesse chegado, porque mães que não sabem lidar bem com mudanças estão completamente perdidas e condenadas aos mais cruéis momentos de angústia e sofrimento. Porque filho muda. Muda muito. E a cada três ou quatro anos experimentam um grande rompimento com a fase anterior. Rompimento que eles sentem e do qual se orgulham enormemente. E daí vai explicar a mãe que, em vez de comemorar junto e demonstrar o orgulho que, obviamente, também está sentindo, chora feito uma obsessiva compulsiva. Criança não entende, pai da criança não entende, nem a mãe da criança entende direito. Só entende que é difícil. É difícil demais perceber, de uma hora pra outra, a mudança física, as mudanças dos gostos, das brincadeiras, do vocabulário, dos interesses. E é com lágrimas nos olhos que me sento ao lado dela, radiante de felicidade, para preencher a matrícula para o próximo ano letivo e conferir sua produção desse ano: livros e cadernos preenchidos com contas, letras lindamente desenhadas, historinhas de sua própria autoria. E a vontade é de dizer “Chega, não quero mais ver isso. Eu quero as folhas rabiscadas, a mãozinha contornada no papel, os desenhos extremamente mal pintados. Isso sim me deixava confortável”. E agora me vem à cabeça outro momento, há exatos três anos, que sofri com tanta intensidade quanto estou sofrendo agora. Na ocasião, a Clara, com a pureza e com a mente tranquila que só as crianças de três anos conseguem ter, disse para mim, que me entregava sem amarras à imaturidade dos meus 30: “Mãe, o tempo passa. Eu não posso ter três anos pra sempre”. Eu sei e me orgulho imensamente das suas conquistas e da pessoa que você está se tornando. Só que às vezes dói um pouquinho.

sábado, 20 de novembro de 2010

COISAS QUE SÓ UMA GRÁVIDA FAZ

Hidroginástica.
E como se não bastasse, uma grávida possuída, como eu, aproveita toda a ira, intolerância e antipatia que só a gravidez é capaz de lhe dar, pula a aula inteira feito uma pomba-gira em noite de reveillon e quase se estrebucha só pra deixar bem claro pras colegas de 70 anos que só está ali porque se preocupa muito com o ser que está dentro da sua barriga. Porque, na verdade, deveria estar mesmo era fazendo escalada, rapel ou se preparando para a São Silvestre.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

PARA CLARA

(SOBRE SEU IRMÃO, MEUS IRMÃOS E TODOS OS IRMÃOS DO MUNDO)


Clara,

eu sei que agora não faz o menor sentido ficar te falando de como é bom ter um irmãozinho e de como ele vai ser importante na sua vida. Principalmente, se tratando de um irmãozinhO e não da menininha que você gostaria. Dizer que todo mundo ama seus irmãos não quer dizer muita coisa quando, provavelmente, o que te vêm à cabeça quando você pensa em meninos é futebol, monstros, super-heróis, lutas e coisas, enfim, de meninos. E, pra falar bem a verdade, é assim mesmo que vai ser por um bom tempo. Cada um com seu mundo. Você com a delicadeza das princesas e bailarinas, com a responsabilidade de irmã mais velha, com a organização e o capricho das meninas e ele, a princípio com sua rotina e dependência chatas de bebê e, depois, com seus pulos, correrias, bagunças no teu quarto, calças rasgadas, roupas cheias de barro, disputando tudo com você (desde o colo da mãe até o melhor lugar no carro). Te dou razão. Pra que você vai querer alguém que vai bagunçar tanto a tua vida? Mas tem uma coisa que você não sabe e eu preciso te contar. Essa diferença entre vocês não vai impedir, de maneira alguma, que uma das primeiras pessoas que teu irmão reconheça e confie seja você. E que os primeiros e mais sinceros sorrisos sejam dados a você. E, apesar das eventuais (espero) brigas e disputas, vai ser estando junto a você que ele vai sentir o conforto e a segurança da família, mesmo na ausência do pai ou da mãe. E, bem mais tarde, quando ele entender um pouco das coisas (e isso pode demorar bastante tempo, mas uma hora acontece), ele vai perceber que te ama de verdade. Que você sempre esteve ao seu lado e sempre vai estar. E você, muito antes dele, já vai ter percebido tudo isso também. E é aí que você vai entender o que a gente estava tentando te explicar.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A IMPORTÂNCIA DOS GATOS PARA O EQUILÍBRIO MENTAL DE PESSOAS DESEQUILIBRADAS

Aqui em casa, além da Clara, do meu marido e de mim, vivem também duas gatas, para surpresa daqueles que me conhecem um pouco. Sim, porque basta me conhecer um pouco pra perceber que eu mantenho um relacionamento um tanto quanto doentio/passional/xiita com a organização, a ordem e a limpeza. E gatos imprevisíveis, que não perguntam se, por um acaso, eu não me incomodaria se eles subissem na cama recém arrumada, ou deixassem seus pêlos espalhados em cima da poltrona nova, ou esparramassem um pouco sua ração no chão que acabou de ser limpo, parecem mesmo não combinar com meu estilo tolerância zero de ser. Já eu, que me conheço um pouquinho mais, digo que tem tudo a ver. As minhas gatas são, justamente, o elemento surpresa, a desordem, o incontrolável nessa estrutura tão cheia de regras e tão perfeitamente previsível que é a minha casa. As gatas me impõem um exercício de tolerância e bom senso que eu não costumo praticar. A Clara, certamente, faz aflorar em mim uma tolerância e uma paciência que eu não tenho a menor ideia da onde surgem. No entanto, nem com ela sou tão permissiva em relação à bagunça e à sujeira como sou com as gatas. O que me parece bastante óbvio: gato é gato. Não vai aprender a enfileirar seus potinhos de ração e a catar os grãozinhos da areia que caem pra fora da caixinha do xixi. E a nós, resta aceitar ou não. E pela minha cabeça nem passa a ideia de não aceitar, de querer se desfazer de qualquer bicho que seja porque ele não tem a capacidade de obedecer a um bando de regras imbecis que a gente costuma inventar e impor. Talvez seja por causa das minhas gatas e, seguramente, da Clara, que eu não tenha me transformado em uma fundamentalista asséptico-organizacional (leia-se louca) total. E o fato das gatas serem, aqui em casa, o que existe de mais natural e espontâneo, fazem com que elas sejam essenciais para o desenvolvimento da Clara. É com as gatas que ela vai, também, aprender a ser tolerante, além de entender, na prática, porque devemos respeitar e ter limites. Ou seja, além dos benefícios já mais do que reconhecidos para o desenvolvimento das crianças, os animais são importantíssimos para manter a sanidade de algumas pessoas. E o fato de eu ter chegado a essa conclusão me deixa até um pouco feliz e faz com que eu acredite que eu não seja tão maluca assim (e qualquer comentário contrário a isso vai ser imediatamente deletado).


E COM VOCÊS, AS GATAS

 GATAS MAGRAS: CLARA E NATASHA


GATA GORDA: CHIARA

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

AS COISAS VELHAS E NOSSA RELAÇÃO COM ELAS - DOIS PONTOS DE VISTA

Eu, ressuscitando o meu Banco Imobiliário, guardado com amor e carinho por mais de vinte anos, mostrando orgulhosa e nostálgica para minha filha as cartas amareladas, o tabuleiro gasto, as anotações feitas com minha letra de criança. Já imaginando (e achando lindo de morrer) que o mesmo objeto que esteve presente na minha infância e que hoje me traz várias lembranças vai, também, fazer parte da infância da Clara.

A Clara, só observando, decide, por fim, expressar sua opinião: “Mas o Monopoly é bem mais legal. E esse tá meio sujo, né mãe?!”

Doce ilusão a minha achar que meu Banco Imobiliário de primeira geração poderia competir com os Monolopys (nem Banco Imobiliário mais é!) coloridos e high-techs do Bob Esponja, da Disney, dos Simpsons, Júnior, que passam cartão de crédito e soltam fogos de artifício no final.

Mesmo assim eu tentei: “Vamos jogar Clara. Você vai ver que é legal igual“. Jogo em andamento, a Clara se esforçando, mas sem muita empolgação, não resiste e pergunta: “e então mãe, vamos ficar com esse mesmo ou vamos comprar um Monopoly?”

Ok. Só não venham me dizer que o Game of Life é muito mais legal que o meu Jogo da Vida.



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

SEGUNDO TRIMESTRE

Décima segunda semana. Grávidas, comemorem. Porque as chances de abortos espontâneos diminuem? Os enjôos e a dor nos peitos também? Sim. Tudo isso é realmente importante, mas, nesse exato momento, o que eu estou achando mais legal é que, daqui pra frente, as ecografias não são mais transvaginais. Já somos crescidinhas agora. Podemos ficar vestidas, com as pernas fechadas e observar tranquilamente a televisãozinha sem ficar pensando “ok, já vi, agora pode tirar esse negócio daí”.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

AMO MUITO TUDO ISSO

- ter bastante tempo para ficar com a Clara

- ficar com a Clara mesmo sem ter muito tempo

- viajar só com meu marido

- viajar com meu marido e com minha filha

- viajar com minha família toda (marido, filha, pai, mãe, vó, irmãos, cunhadas, sobrinha)

- dormir até tarde

- almoço de sábado

- tarde de sábado

- noite de sábado

- sábado

- sexta-feira

- pizza

- vinho

- montar quebra-cabeça com minha cunhada

- ter um marido que gosta de ir ao supermercado

- não precisar guardar as compras que o marido traz do supermercado

- não precisar limpar a casa

- não precisar lavar roupa

- ler qualquer coisa (livro, revisa, jornal, blog) sem obrigação nem compromisso

- assistir House

- férias na praia

- praia fora das férias

E, provavelmente, mais um montão de coisas que não vieram na minha cabeça nesse momento.




terça-feira, 5 de outubro de 2010

MISTÉRIOS DA GRAVIDEZ - PARTE II

Se a criatura que carrego aqui dentro tem pouco mais de 6 cm, como pode minha barriga já ter aumentado pouco mais de 20?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

RECEITA PARA UMA MÃE FELIZ

É claro que o título acima revela uma pretensão exagerada de minha parte. Provavelmente não existe uma receita pronta e de fácil execução para fazer de nós mães felizes por toda a vida. E se é que exista, não sou eu que a tenho. Portanto, o que vou dizer aqui é, antes do que uma fórmula secreta, uma opinião pessoal. É o que eu tento fazer e o que eu espero ter sempre em mente para garantir o mínimo de frustração possível como mãe. Bom, primeiro tenho que explicar: eu acho sim que o simples fato de se ter um filho já nos garante felicidade eterna e que não há nada melhor e mais prazeroso do que ser mãe. Mas a felicidade de que estou falando agora não é esse sentimento de mãe, que transcende qualquer coisa e que nem dá pra classificar, mas sim a felicidade mais comunzinha mesmo, aquela dos reles mortais, que nos dá um sorriso na boca, infla nosso ego e nos enche de prazer e tranquilidade momentâneos. E pra mim, o segredo pra se ter isso sempre nas nossas vidas de mãe é primeiro acreditar nos nossos valores e segui-los fielmente. Porque é observando como você age perante os outros e perante situações diversas que seu filho vai adquirir os próprios valores e é uma baita de uma alegria ver ele se comportando exatamente como você acha que é correto. Depois disso, é também muito importante que a gente ame, ame e ame e dê todo carinho que a gente julgar necessário e todo o apoio e faça tudo o que acharmos correto fazer, mas nunca, nunca, nunquinha cobre nada em troca. Porque o que eu não quero é jamais ter sequer uma vontadezinha de reclamar que meus filhos não me dão atenção suficiente, não retribuem meu amor e meus incansáveis anos de dedicação e renúncias, como eu já ouvi muitas mães falarem por aí. Porque amor de mãe é pra ser dado mesmo e não emprestado pra depois ser devolvido com juros e correções monetárias. E pode ter certeza que esse amor nunca vai ser dado a fundo perdido, porque tudo vai ser convertido em um filho carinhoso, de bom caráter, bem resolvido, que saberá respeitar e que com certeza vai te amar. E soltar um filho assim no mundo deve dar uma sensação de dever cumprido e uma felicidade que valem milhões de vezes mais do que um “eu te amo” proferido ao léu.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

MISTÉRIOS DA GRAVIDEZ - PARTE I

Eu, me preparando para ser mãe novamente, não deveria estar doce, meiga, terna, leve e iluminada como um anjo saltitando nos jardins do paraíso? Por que diabos então eu só penso em jogar o gato na parede, estrangular o porteiro, bater no vizinho, esfaquear qualquer criatura viva que respire do jeito errado (explicação: todo o jeito, com exceção do meu, está sendo considerado errado), pedir que meu marido e minha filha façam uma viagem de exploração espacial e voltem logo mais, me trancar em um bunker e tacar fogo no que sobrou do mundo?
Horrorizada? Eu também.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

DIGA-ME COM QUEM ANDAS QUE TE DIREI QUEM ÉS

Não me preocupo com as amizades da Clara ainda e imagino que nunca irei me preocupar. Acredito que a educação que damos a ela e a sua inteligência façam com que ela naturalmente se aproxime das pessoas legais e se afaste das que tenham valores muito diferentes dos nossos. É claro que não acho que os nossos valores e a nossa forma de educar sejam, necessariamente, os melhores e mais corretos. Nem sei se existe “O” mais correto. E, por isso mesmo, também não acho que devemos afastar do nosso convívio tudo o que seja diferente. Pelo contrário. Diversidade sempre é bom e é com ela que a gente aprende. Porém, sei o quanto as crianças e os adolescentes podem fazer besteira quanto se unem e me sinto, sim, bem mais confortável sabendo que os amigos da Clara são pessoinhas bacanas, que estão sendo educadas por pais igualmente bacanas. E se você acha que parece besteira falar sobre a influência das amizades nas crianças de seis anos, acredite: aos seis anos esse povo já é cheio de personalidade, cheio de ideias (boas e ruins), sabem influenciar como ninguém e são altamente influenciáveis. E é por isso que eu fico bem feliz que esses amiguinhos de longa data aí de baixo continuem sendo os preferidos da Clara (o que, por enquanto, comprova a minha teoria de que eu não preciso me preocupar).


                              Gi ("minha melhor amiga"), Clara e Brunno ("o menino mais legal da minha turma").

sábado, 11 de setembro de 2010

SOBRE BLOGS ABANDONADOS E FILHAS PODEROSAS

Muito tempo perdido com preocupações bobas, muita importância dada a coisas nem tão importantes assim, muito estresse desnecessário e pouco tempo destinado às coisas realmente boas da vida (espero corrigir isso). Mas volto no melhor estilo mãe coruja, exibindo pra todo mundo as proezas da minha cria. Mas diga se não é a coisa mais fofa mesmo (pena que a qualidade do vídeo não está à altura).


video


E vendo isso penso aqui comigo (e escrevo pra nunca esquecer): acho que devemos dar muita atenção e incentivar muito o desenvolvimento das habilidades artísticas das crianças. Às vezes acho que damos importância demais ao ensino formal. Porque, na verdade, agora me parece que é bem mais fácil do que eu costumava imaginar ser um bom médico, um bom engenheiro, ou um bom qualquer outra coisa. Basta ter caráter e um pouco de comprometimento. No entanto, a graça na vida é ser algo além de um bom profissional, que trabalha direitinho e volta no final do mês com o dinheiro pra pagar as contas. E esse algo além tem tudo a ver com o lado artístico. Pessoas com sensibilidade artística mais desenvolvida têm maior capacidade criativa, têm um conhecimento cultural mais amplo, têm uma maneira peculiar de encarar as coisas e são, certamente, mais interessantes. Espero que a Clara seja dessas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

MINHA FILHA É MAIS MADURA DO QUE EU EM DOIS ATOS

PRIMEIRO ATO

Eu dirigindo e me divertindo um monte tentando usar o pé esquerdo para frear. Depois de dar dois solavancos seguidos peço desculpa à Clara e explico o motivo. E ela:

- Rua é coisa séria, mãe. Não é lugar de fazer teste. Tem que fazer do jeito que você sabe melhor.

- Ahhh, tá.


SEGUNDO ATO

Eu usando o melhor da psicologia infantil pra tentar convencer a Clara de assistir ao jogo do Brasil comigo e não ir para chácara da avó:

- Clara, você tem que ficar aqui porque você assistiu todos os jogos até agora com a gente e o Brasil ganhou, se ele perder vai ser tua culpa.

E ela:

- Nada a ver. Não sou eu que faço os jogadores jogarem bem.

Poxa Clara! Cadê o pensamento mágico?

terça-feira, 22 de junho de 2010

MEU CONTO DE FADAS

Sete anos vivendo sob o mesmo teto e... discutindo muito. Sim, porque se alguém vive em constante harmonia com o marido eu ainda não conheci. E não vou ser hipócrita a ponto de afirmar que aqui em casa é diferente. Duas pessoas cheias de opinião, que gostam de se fazer de difíceis, educadas de maneira diferente, que de repente tem que dividir uma casa, uma filha, uma vida....não poderia ser diferente. No começo foi ainda mais difícil. Menininha mimada, cheia de ilusões, despencando do alto da sua ingenuidade e descobrindo que príncipes encantados não existem e que o homem que te ama não necessariamente vai satisfazer todos os seus luxos e vai te encher de mimos 24 horas por dia e vai responder seus desaforos e mau humor te enchendo de beijos. Mas, com o tempo, fui me recuperando da queda, fui amadurecendo e entendendo. Entendendo que ele foi o único com quem eu tive vontade de me casar e, provavelmente, o único com quem terei. E não foi uma vontadezinha qualquer. Eu tinha certeza de que era com ele que eu queria ficar desde o primeiro beijo e que alguma coisa muito diferente de tudo o que eu tinha vivido até então ia acontecer a partir daquele momento. E foi assim porque ele era (e continua sendo) tudo que eu sempre quis: inteligente, pertinente, educado, carinhoso, com um jeito de ver a vida parecido com o meu, com objetivos parecidos com os meus. E as diferenças e as dificuldades que o casamento, eventualmente, trouxe à tona não apenas foram insuficientes para encobrir essas características como serviram para evidenciar outras mais. Hoje eu sei, por exemplo, que ele é um pai fora de série e, importantíssimo, me ajuda a cuidar de mim e da minha vida como nem eu mesma sou capaz. Nesse período extremamente conturbado e estressante que estou vivendo, eu só não me desespero completamente porque conto com sua ajuda pra absolutamente tudo: pra fazer compras, pra ir à feira, pra buscar e levar a Clara, pra fazer a janta, pra me deixar dormir um pouco mais cedo quando chego em casa exausta, pra me deixar chorar até me acabar quando me dá vontade, pra me fazer relaxar e esquecer as coisas chatas quando eu mais preciso. Enfim, dá pra querer alguma coisa diferente? Acho que, transpondo os contos de fada pro mundo real, eu posso sim dizer que encontrei meu príncipe encantado. Talvez não aquele que vai lutar com o dragão e com a bruxa pra ficar comigo ou vai construir um castelo em minha homenagem, mas, certamente, aquele que vai me fazer feliz para sempre.

domingo, 13 de junho de 2010

MINHA MÃE, COM MUITO ORGULHO

Já falei que minha mãe é especial? Pois ela é. Sempre foi uma mãezona, super presente, atenta e preocupada e que, modéstia a parte, criou três filhos ótimos. Cheios de caráter, dignidade e bons valores. Enfim, somos tudo de bom graças a ela. Agora ela está quase chegando nos 60 anos, aquela idade que a vida começa a acalmar e sobra um pouco mais de tempo pro tricô, pro patchwork, pra cozinha e pras palavras cruzadas. Mas minha mãe resolveu dedicar esse tempo pra se tornar uma fera no videogame, tocando guitarra como poucos, e pra bater records em cima de records nos jogos do computador. E filho, que não é coisa fácil, resolveu pegar no pé. Ela, cansada de tanta encheção, escreveu esse texto pra desabafar. Que eu chorei e chorei quando li e nem pedi permissão pra ela pra colocar aqui (mas acho que ela não vai se importar).

Então, com a palavra, minha mãezinha.

Agora, depois dos 50, me descobri adepta e viciada em joguinhos de computador e videogames, estando sempre em busca de superar fases, bater records e gastando nisso incontáveis horas, com uma persistência que foi classificada de "doentia”. Esse julgamento e, certamente justa condenação, me levou a refletir muito sobre tudo que fiz na minha vida até agora e me questionar sobre essa perseverança que sempre me acompanhou. Será ela realmente uma compulsão patológica?

Na infância e adolescência usava o mesmo vestido não em duas ou três festas mas em vinte ou trinta, enquanto ele me coubesse (e SEMPRE cabia) me impondo numa sociedade que supervalorizava o ter, a aparência, os trajes variados, modernos e de tecidos importados. Entrava em botecos de categoria duvidosa para pedir ao pai alcoólatra, que procurasse manter-se sóbrio para comparecer a algum evento escolar, insistindo em manter esse pai totalmente ausente e já esquecido pelos outros filhos, participante na minha vida, assinando meus boletins, etc. Carregava esse pai bêbado para casa com a ajuda dos amigos, de quem morria de vergonha, quando o encontrava à noite nas ruas, encostando-se às paredes, sem conseguir sustentar-se nas pernas.

Fazer dois cursos de nível médio? “Nunca vai conseguir, outros já tentaram e desistiram. O magistério tem estágio pela manhã, aulas à tarde, incontáveis trabalhos. O científico tem matérias difíceis, não terá tempo para tudo”, vaticinaram os professores. Esses mesmos professores fizeram todo o possível para atrapalhar, não me dispensando de trabalhos extras e cobrando até que desfilasse no “dia da pátria” para ambos os cursos. Mas não só consegui como fui a primeira aluna e oradora da turma nos dois cursos. E lá estava meu pai, todo orgulhoso (e sóbrio, graças à campanha de uma semana toda) me entregando, no mesmo evento, primeiro um, depois outro certificado.

Estudar em Curitiba? Como? Não temos a menor condição financeira. Dá-se um jeito. Moro com essa tia praticamente desconhecida, sou babá do seu mimado filho, aguento o ranzinza marido que, entre muitas outras avarezas e antipatias, desliga eletricidade do chuveiro em pleno inverno para que eu não dê mais despesa do que já dou. O pior, caio no fundo de um poço ao descobrir que ser a melhor aluna na minha cidade significa a mais profunda ignorância em termos de vestibular e faculdade. Me apavoro, me deprimo, recuo nos relacionamentos. Menina pobre e caipira, com medo de usar o telefone, sem coragem de se comunicar com ninguém, sem família, sem amigos, fechada no apartamento sozinha aos domingos. Desisto? Não, jamais. Hei de aprender TUDO isso que me parece grego. Noites inteiras acordada estudando, devorando apostilas de 10 a 14 horas por dia. No segundo ano já recuperei a autoconfiança, sentindo-me capaz sim e, incrível, entrei em medicina na UFPR, única faculdade em que, por questões financeiras, me foi permitido prestar vestibular.

Depois de superada a tristeza de perder o pai, tristeza não tão intensa devido à sua ausência cada vez maior nos últimos anos, uma fase muito boa. Começo de faculdade, morando com a mãe, o irmão e, logo depois, com a prima; novos amigos, muita alegria.

Inesperadamente um filho. “Não podemos levar essa gravidez adiante. Não podemos nos sustentar. Precisamos estudar, terminar os cursos. Agora? No internato? Dormindo em casa só em noites alternadas? Como?” Não sei. Mas desistir? JAMAIS! Filho que não dormia hora nenhuma, pilhas de fraldas para lavar e passar, inúmeras mamadeiras para preparar antes de ir para o HC, feira às 6:00 hrs. Noites passadas no PA da pediatria cuidando dos filhos dos outros e chorando por saber que o seu estava doentinho em casa e o que mais queria era estar com ele. Desânimo? Não, só alegria, disposição e amor pra dar. Aí a persistência foi também do maridão e da mamãe. E vejam só, conseguimos nos formar, contra as apostas de todos, até de nossos pais.

Depois de formada, a vida estabilizou-se. Uma filha, mais alegria em nossas vidas. Situação financeira bem melhorada. Mas, residência com dois filhos pequenos não dispensa imensa dose de teimosia. Mais um filho, alegria triplicada. Tudo ótimo. Ops, tudo? Manter o casamento e a união da família foi, talvez, o maior exercício de paciência e tenacidade da minha vida. Nisso investi muitas noites e bati incontáveis records.

Criar três filhos, educando com carinho e paciência, em meio a trabalho muitas vezes exaustivo é função que todas as mães conhecem mas que desempenhei sempre com muita dedicação. Reunião na escola? Não podia faltar, trocava plantões absurdos, pagava noite por dia mas acompanhava meus filhos nos momentos importantes de suas vidas, conhecia suas necessidades, qualidades e fraquezas. "Livro do mês? Vamos lá. Eu leio um parágrafo e você outro. Dificuldade com matemática? Fazemos campeonato de expressões. Você faz aí e eu aqui, vamos ver quem termina primeiro e corretamente”. Futebol? Vamos lá torcer. Ballet? Corujíssima em todos os espetáculos. Quantos ensaios madrugada a dentro. No dia seguinte trabalho cedo? Qual é o problema?

Filhos crescidos preocupações dobradas ainda insisto em aconselhar quando eles não querem nem partilhar, cobrar quando não querem comunicar, aplaudir quando não se exibem, compreender quando não explicam, zelar quando parecem se destruir. Sou assim. Perdi quantas vidas no joguinho? Mil, duas mil, disseram os filhos que viram lá os meus índices. Puxa, gasto muitas horas jogando! Quantas despendo trabalhando, cuidando, doando? Esses cálculos ninguém fará por mim, mas eu mesma concluo o óbvio: sou doentia e compulsivamente persistente!
 
 
Mãe: é tudo a mais pura verdade, felizmente. Me sinto tão injusta por reclamar e me sentir imensamente triste apenas por não me sobrar tempo pra fazer tudo o que gostaria. Me sinto tão fraca por não aguentar o ritmo da minha vida, que é, e sempre foi, infinitamente mais tranquila e fácil que a sua. Quando o desespero bater, vou lembrar de ler esse seu texto, pra me inspirar e tentar seguir seu exemplo. E o que você não pode nunca esquecer é que filhos e genros e noras vão sempre achar um jeito de te criticar e isso nem é exclusividade sua; tenho a impressão de que acontece com muitas mães (espero também não me esquecer disso quando chegar a minha vez). E você já passou do tempo de se preocupar com o que os outros pensam a seu respeito e tem moral pra fazer o que bem entender pro resto da sua vida. Por isso, por favor, ignore, continue fazendo o que você acha certo, o que te dá prazer. Porque essa é a minha mãe: viciada em videogame, por dentro das últimas piadas da internet e dos últimos vídeos do youtube, com um telefone no lugar do fogão, sempre atrás de novos desafios e novos records a quebrar e capaz de fazer qualquer coisa e de abdicar de tudo, tudo mesmo, pra ter seus filhos e netos por perto. E sabe de uma coisa mãe: você vai ser uma velhinha muito mais esperta e inteligente do que as tricotadeiras e confeiteiras.

domingo, 6 de junho de 2010

APRENDIZADOS

Clara entendendo como as coisas funcionam.

Eu e ela no carro, voltando para casa no domingo, seis horas da tarde. De repente, um baita de um engarrafamento, trânsito completamente parado a duas quadras de casa. Eu:

- Ai que droga! Tem uma blitz bem ali na frente.

- O que é uma blitz mãe?

- É quando os policiais param alguns carros para verificar se está tudo certo com os documentos do carro e do motorista.

- Quando roubaram o carro do pai ninguém parou o ladrão pra ver se estava tudo certo com os documentos.

Eu tentando defender os policiais:

- Pois é. Às vezes os policiais têm azar e só param os motoristas que estão com tudo certo e deixam justamente o ladrão passar.

- Mas nós avisamos os policiais que o ladrão tinha levado nosso carro. E ele foi até Joinvile com o carro e ninguém parou?

Eu já sem argumentos:

- Pois é...

E a Clara com sua brilhante conclusão:

- Esses policiais são uns toscos mesmo.

E nem fui eu que falei.

domingo, 16 de maio de 2010

O MAIS NOVO SEGREDO DAS MÃES

Sabe o que a mamãe faz quando já ajudou a fazer a lição, deu janta, deu banho, ajudou a por o pijaminha, a pentear o cabelo, escovar os dentes, levou pra cama, leu uma historinha e deu um beijo gostoso de boa noite? Vai escrever no blog. É isso que as mamães de hoje em dia fazem, secretamente, quando todo mundo já foi dormir: escrevem sobre os filhos, sobre suas vidas com os filhos. Dão conselhos e pedem conselhos. Visitam os blogs das outras mães e acabam achando um jeito de driblar a solidão que a vida corrida de hoje em dia nos impõem. Juntam-se todas, ainda que virtualmente, e trocam experiências, assim como imaginamos que as mulheres faziam em um certo tempo, reunidas em suas casas, nas pracinhas, nas ruas. Enquanto viam seus filhos brincar, acabavam ajudando a cuidar, também, dos filhos das outras. Aproveitavam para trocar experiêncas, tirar dúvidas, compartilhar sentimentos. E agora, apesar das adversidades, apesar da vida louca que a gente leva, estamos, mães, nos unindo novamente. E, então, fica provado: não somos auto-suficientes. Precisamos de companhia e apoio, precisamos sentir que não estamos sozinhas. E, assim, ouvindo e contando e ajudando e sendo ajudadas nos sentimos mais seguras, capazes e felizes. Pelo menos é assim que me sinto quando consigo ter o meu tempinho aqui na frente do computador para contar um pouco da minha vida e saber um pouco o que se passa na cabeça dessas outras mães que fazem como eu e que já me parecem conhecidas de longa data (apesar de eu não conhecer pessoalmente nenhuma delas). Por isso a mães do século XXI recomendam: entrem em blogs, comentem em blogs, tenham seus blogs. Faz muito bem pra saúde.

domingo, 9 de maio de 2010

DIA DAS MÃES

Coisa boa ser mulher e poder ser mãe, que é simplesmente a coisa mais maravilhosa do mundo. Pai é fundamental. Todo mundo sabe o quão prejudicial pode ser para uma criança crescer sem ter a referência paterna e o quão danoso pode ser para uma mulher ter que cuidar de uma criança sozinha. Mas todo mundo sabe, também, que mãe é diferente. A diferença, na minha opinião, é que, além de dividir com o pai essa função maravilhosa de educar e construir o caráter do filho, a mãe está presente em todas as pequenas coisas do dia-a-dia. E a certeza da presença da mãe pra nos ajudar a resolver os pequenos impasses do cotidiano nos aconchega e nos acalenta e faz tudo ficar mais fácil e mais gostoso. A mãe ajuda a decidir qual a melhor roupa pra ir na festa, ajuda a arrumar o cabelo, ajuda a resolver aquela briga boba com a amiga, leva, busca, dá comida, prepara o lanchinho. A mãe tem o prazer de vivenciar cada suspiro, cada acontecimento na vida dos filhos (pelo menos enquanto eles ainda são pequenos e nós temos o controle sobre eles). Então, vamos aproveitar essa fase tão maravilhosa na qual podemos exercer plenamente nosso papel de mãe. Mãe protetora, mãe facilitadora, mãezona. Obrigada meu marido por ter me possibilitado isso. Obrigada minha filhinha querida por deixar que eu desempenhe esse papel com toda intensidade possível e permitir que eu viva esse desafio de tentar criar uma pessoa feliz.

sábado, 8 de maio de 2010

MÃE É MÃE

De repente, coisas que eu achava super lugar comum e constrangedoramente bregas do tipo “mãe, você é tudo pra mim, te amo do fundo do meu coração” passam a ser maravilhosamente lindas e emocionantes. E a apresentação do dia das mães na escola, com direito a acompanhamento de saxofone, se transforma em uma choradeira sem fim e em um dos melhores acontecimentos do ano. E é nessas horas que eu percebo, mais do que nunca, o efeito de um filho sobre a gente e só agora eu entendo a minha mãe e penso que não deveria ter considerado essas coisas tão bregas assim. Talvez devesse ter esquecido a originalidade e a atitude, que eu achava que tinha que demonstrar a partir de certo momento da minha vida, e devesse ter sido mais carinhosa, mais lugar comum. Porque é disso que as mães gostam.

sábado, 1 de maio de 2010

ACONTECEU COMIGO

Papo bem chato e triste e desagradável pra falar aqui. Ou em qualquer outro lugar. Mas, afinal, um dos motivos da existência desse blog é, justamente, permitir que eu abra meu coração, fale coisas que eu não tenho coragem, mas tenho vontade, de sair falando por aí. E daí, me escondo atrás do anonimato da vida virtual e vou botando tudo pra fora; terapia total.


Então, vai lá. Sabe aquele pesadelo que acompanha as grávidas de primeiro trimestre? Aquele diabinho que insiste em passear pelas nossas cabeças nos fazendo lembrar que ainda não estamos grávidas de fato, que muita coisa pode dar errado nessa tentativa de formar um ser dentro de nós? Essas ideias estavam me atormentando terrivelmente desde que soube da minha gravidez e (intuição, conhecimento de causa?) não é que elas se concretizaram? Pois é. Aconteceu comigo. Experiência das mais dolorosas e tristes que eu já vivi. E olha que eu sou bióloga, sou extremamente racional e, definitivamente, não me comovo com coisas do tipo “o milagre da concepção, o sentimento lindo e inexplicável que a mãe sente pelo filho antes mesmo de saber da sua existência” e blá, blá, blá. Pra mim, um embrião de oito semanas é um embrião de oito semanas. E a gente deve zelar por ele e proteger e fazer o possível e o impossível e tomar todos os cuidados necessários para que ele se transforme em nosso filho, que por enquanto não é. Por enquanto é uma porção de células bem organizadas que acabaram de decidir o que querem ser da vida. Viram como sou racional e durona? Pois muito bem. E aonde foi parar todo esse conhecimento, compreensão e coerência quando eu descobri que o minúsculo amontoado de células que crescia e se multiplicava dentro de mim tinha desistido de ir em frente? Elas pararam assim, todas juntas, de desempenhar seus papéis e abandonaram a missão. E não é a palavra morte que me assusta e entristece, nem tão pouco posso dizer que sofri tanto porque já amava incondicionalmente o meu filho. O que eu amava, na verdade, era a ideia desse filho. Era a imagem que eu já tinha bem nítida de eu sendo mãe daqui sete meses. Eram as mudanças que estavam acontecendo na minha vida em função do que estava acontecendo dentro de mim. Era, sobretudo, saber que daqui a pouco tempo eu estaria fazendo o que eu mais gosto de fazer e que eu ia viver de novo o incrível desafio de ensinar, divertir, consolar, acolher, educar e proteger um outro serzinho. E eu ia experimentar a aterrorizante sensação de amar muito, mais muito mesmo, alguém, a ponto de mudar minha vida, minha personalidade, meus ideais e me sentir muito feliz com tudo isso. E, gente!, é muito difícil ter que lidar com a interrupção tão abrupta dessas ideias, mesmo sabendo de divisão celular, da ativação da expressão gênica e de todas as porcentagens e chances e números. Que se dane as estatísticas e a biologia nessas horas. Eu continuo chorando e sentindo profunda tristeza e querendo que nada disso estivesse acontecendo comigo. Vai passar? É claro que vai. Como tudo na vida.

QUERO SER NORMAL EM CURITIBA

Ser normal em Curitiba é:

          tirar foto dentro dos cones do "museu do olho".


segunda-feira, 26 de abril de 2010

DESCOBERTAS, DÚVIDAS E INCOMPREENSÕES

E daí que um dia você percebe que pode ser uma boa biologista molecular. Foi uma boa aluna na faculdade, uma boa aluna de mestrado, uma boa aluna de doutorado e agora é capaz de ser uma boa profissional, talvez até um pouquinho acima da média. E você percebe que você poderia ter sido uma boa bailarina, ou uma boa médica, advogada ou engenheira, se você tivesse escolhido assim. E entende que, quando a gente quer e se dedica, pode ser boa, ou pelo menos bastante razoável, em uma porção de coisas. Mas daí você descobre que tem uma coisa, entre todas que você já experimentou, que realmente te diverte e te dá prazer. Talvez a única até agora. Uma coisa que não te chateia, que não te estressa, que não te deixa maluca com vontade de explodir tudo que encontra pela frente. E essa coisa é cuidar de filho. E você se assusta porque parece que isso não combina com você. Mas mesmo assim tem cada vez mais vontade de largar tudo e sair correndo só pra poder ficar com teu filho e gastar todas as suas forças com ele. E tem certeza de que isso te deixará muito mais feliz do que qualquer outra coisa que você possa fazer. E você não entende e sente um pouco de inveja da grande maioria das outras mães que nunca, jamais, pensam no absurdo de abrir mão de suas carreiras e de suas tão merecidas conquistas profissionais e conseguem fazer tudo ao mesmo tempo e têm um, dois, até três filhos e continuam sendo influentes, poderosas e bem-sucedidas. E você ouve que a mulher tem que ser independente, não pode se anular e fica muito triste e confusa porque tudo o que você queria era um pouco mais de dependência e tempo pra ser mãe e dona-de-casa. E você não acha que você estaria se anulando assim, porque, na verdade, você não está nem aí pra ser poderosa e influente e super-profissional. Daí você pensa: será que tem alguma coisa errada comigo? Será que eu sou preguiçosa e não gosto de trabalhar? Por que, afinal de contas, eu prefiro passar duas horas na cozinha fazendo bolinhos de espinafre com a minha filha do que estar em uma reunião com pessoas inteligentes e importantes, decidindo coisas fundamentais pro país? E você torce pra que nenhuma feminista e nem o teu chefe leiam isso aqui.

domingo, 21 de março de 2010

CONFISSÕES DE UMA GRÁVIDA PREGUIÇOSA

Na primeira gravidez, eu, na flor dos meus 25 aninhos, muito preocupada em ser uma grávida bonitona. Barriguda, mas com tudo em cima. Estrias, celulite, flacidez? Deus me livre! Eu não tinha sido feita pra isso. E agora, segunda gravidez, eu, uma balzaquiana de 32 anos, me entrego sem remorsos aos prazeres da carne. Não sei se é pela idade avançada ou pela resignação de que eu não vou mesmo ser convidada para posar na Playboy, nem pra ser a musa do brasileirão e nem pra ser a madrinha da bateria da Mocidade Azul de Curitiba. O fato é, que aquela preguiça contra a qual eu lutava tanto quando eu estava grávida da Clara, agora me domina por completo. E eu deixo. Se me dizem "melhor não fazer atividade física nos três primeiros meses" eu logo penso "ótimo, assim sobra mais tempo pra eu não fazer nada". Se aquela fome mortal ataca, não tem problema, eu como o que achar pela frente, seja uma saudável e light maçã, seja um prato gigante de macarrão com molho branco. Tudo muito natural e espontâneo. Acho que é agora que embarango de vez. E penso que eu me preocupo? Por enquanto não. Vamos ver depois, quando o resultado disso tudo vier, de fato, à tona.

domingo, 14 de março de 2010

QUEM AVISA AMIGO É

Para aquelas que ainda não descobriram, vai aí a dica: nunca, jamais, aponte um defeito seu na frente dos seus filhos. Porque duas situações podem ocorrer a partir daí (e nenhuma delas será agradável).


Situação número 1: se seu filho for ainda pequeno, com 2, 3 ou 4 anos, ele simplesmente pode não perceber que o que você acabou de mencionar é um defeito e que, via de regra, ninguém gosta que seus defeitos sejam apontados. Então, você correrá o risco de ter que conviver com situações constrangedoras e ouvir frases como estas, proferidas nos locais menos apropriados: “mamãe, né que você tem a bunda de gelatina?” ou “olha que legal o seu bumbum de gelatina!”, enquanto dá tapinhas indiscretos nas suas nádegas bem no meio do supermercado. Sim, isso aconteceu várias vezes comigo após ter compartilhado com a Clara esse detalhe sórdido da minha anatomia.

Situação número 2: se seu filho já for mais crescidinho, ele entenderá, sim, perfeitamente, que você está falando de um defeito seu e vai adorar saber que a mãe dele não é a perfeição que aparenta ser. E vai preservar essa observação bem vivida na memória para poder usar nas situações que mais julgar conveniente. Exemplo: mãe fala: “meu filho, você está sendo mal educado e desobediente e merece um castigo” e o filho: “e você tem essa bunda mole horrorosa”.

Pois é, filhos são sacanas e estão loucos para achar defeitos em você. E vão conseguir. Então, deixe que a coisa fique pelo menos um pouco mais difícil para eles e não entregue o ouro assim, de bandeja.

terça-feira, 9 de março de 2010

TUDO DE NOVO

É, ao que parece a Clara não vai mais ser filha única. Pois é, pelo menos por enquanto estou gravidíssima. E é assim que pretendo continuar pelos próximos nove longos meses, apesar de que o desespero que tomou conta de mim na semana passada possa ter dado indícios do contrário. E eu que jurava que, caso eu ficasse grávida de novo, tudo seria diferente. Afinal de contas, eu agora estou mais madura e mais certa do que eu quero na vida (hahaha, era o que eu pensava). E dessa vez eu estava, de fato, programando ter mais um filho. Mas, ironia das ironias, ele veio justamente quando eu já tinha deixado de programar. Aliás, eu já tinha programado não ter mais filho nenhum e já estava completamente convencida e confortável com a minha decisão. E vem a vida e me pega de surpresa. E vem o desespero e me pega quase que de surpresa. Não me pega totalmente de surpresa porque eu já tinha sentido tudo isso, bem parecido, da primeira vez que fiquei grávida. As mesmas angústias, as mesmas dúvidas: será que foi uma boa idéia? Será que serei capaz de dar todo o amor e carinho que dei pra Clara para esse outro filho? Será que continuarei sendo capaz de dar todo o amor e carinho que dou para Clara com a chegada desse novo filho? Será que sou mesmo uma boa mãe e mereço mais uma criança sob minha responsabilidade? Será que essa criança vai ser feliz nesse mundo de cabeça pra baixo em que vivemos? Será que não foi muita irresponsabilidade de minha parte? Será, será, será? Enfim, é tanto será que quanto mais eu me pergunto mais dúvidas me aparecem e mais angustiada eu fico. Acho que o negócio agora é tentar esquecer as preocupações e curtir o máximo essa ideia que já me alegra tanto. Imagino que a ansiedade e as incertezas sejam normais para nós, que temos a consciência da imensa responsabilidade que é criar alguém, e não importa quantas vezes formos mães elas sempre vão voltar com força total. E talvez (torço muito, torço muito pra que sim), o fato de ficarmos tão preocupadas e nervosas seja um indício de que tomaremos muito cuidado pra que tudo dê certo e de que faremos de tudo para desempenharmos bem o nosso papel.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

HIPOCRISIA? TÔ FORA

Sabe o que eu odeio: hipocrisia. No mundo das mães, a hipocrisia é muito bem representada na falsa supermãe. A falsa supermãe é aquela que critica o tempo todo a maneira como as outras mães criam e educam os seus filhos e que está sempre pronta pra falar “eu é que não vou fazer nunca isso com o meu filho”. É aquela que quando você volta a trabalhar depois da licença maternidade, seja por necessidade ou por vontade, é a primeira a soltar um comentário do tipo “Ai, que horror! Pra que ter filho se é pra deixar pros outros cuidarem”. E vai seguindo com seu falso moralismo, se achando a criatura mais especial e mais sacrificada da face da Terra porque largou tudo, tudo mesmo, trabalho, lazer, amigos, só pra se dedicar ao filho. Mas, é aí que entra a hipocrisia, não se sente nem um pouquinho feliz com essa nova condição e despeja todo seu mau humor e suas frustrações em cima da criança. Só que, pra manter a aparência de supermãe e mostrar como sua vida é sofrida, não aceita ajuda de ninguém, mas também não é capaz de gastar 30 minutos do seu diazinho miserável pra brincar, conversar, cantar, pintar, ou seja, ter um momento agradável com o filho, porque está sempre muito ocupada e estressada para isso. E assim vai criando um pequeno monstrinho, agressivo, cheio de complexos, com problemas de interação e relacionamento. Nossa! Tô meio revolts hoje. Será que tô exagerando? Mas é que conheço gente assim e me revolta não só seu julgamento errado das pessoas, mas, principalmente, ver o mal que estão fazendo para seus próprios filhos. E acho que a moral da história é: vamos tentar não nos preocupar tanto com a vida alheia e fazer o que mais nos agrada, o que nos faz mais feliz, sem falsos moralismos, seja cuidar de filho o dia inteiro, seja trabalhar o dia inteiro. O importante é fazer com prazer, porque, afinal, todo mundo com um mínimo de bom senso sabe que a única maneira de fazer seu filho feliz é estar feliz também.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

E DE NOVO A CULPA

Basta um dia mais friozinho e chuvoso, basta uma reclamaçãozinha da minha filha às sete e meia da manhã deste dia (“ai mãe eu tô tão cansada... você sabia que eu não gosto muito de passar o dia inteiro na escola?”), basta a empregada faltar bem no dia que a casa está virada do avesso e que não tem nada pra comer e as roupas estão todas sujas, pra que pensamentos nefastos se apoderem do meu cérebro. Xô! Sai pra lá coisa ruim! Eu estava até que empolgadinha com esse negócio de voltar a trabalhar, achando que realmente tinha tomado uma boa decisão e agora vem a culpa me assombrar de novo: “O que afinal de contas eu estou fazendo aqui? Deveria estar em casa montando quebra-cabeça com a Clara. E a noite, coitadinha, vai chegar tão tarde depois da aula de música e eu não vou ter tido tempo de preparar nada gostoso e saudável pra ela comer e nem de passar no mercado pra comprar umas frutas e nem de brincar um pouquinho com ela e nem de contar uma historinha antes dela dormir.” Ai! Que saco essa busca pela perfeição que nos acompanha o tempo todo. Perfeição que, é claro, não conseguimos atingir e só nos faz sentir incapazes, erradas e insatisfeitas. Será que é assim com todo mundo? Eu, pelo menos, acho que as conquistas que as mulheres tiveram nas últimas décadas, apesar de incontestavelmente benéficas, fizeram aumentar, sobre nós, a pressão pela perfeição. Porque afinal, apesar dessa balela de que homens e mulheres são iguais e têm os mesmos direitos e deveres, é de nós que a sociedade cobra que dê aos filhos uma boa educação, uma boa alimentação, muita atenção e carinho, que os criemos felizes e sem traumas, com muito estímulo e com total respeito à sua individualidade. E se alguma coisa der errado, é claro que nos sentiremos culpadas. E como se não bastasse, ainda exigimos de nós mesmas ser bem sucedidas profissionalmente, estar sempre bem informadas, ser super descoladas, ter um ótimo senso de humor e ser magras, malhadas e elegantes. Ufa!!! Daí a gente pode pensar: mas se somos nós que nos cobramos é só parar de nos cobrar e pronto. O negócio é que não é tão simples assim considerando o bombardeio crescente de livros e informações e programas de TV e exemplos dos mais diversos que nos ensinam e nos estimulam a ser cada vez mais perfeitas e corretas. Bem, mesmo assim a gente tem que tentar ficar o mais imune possível a essa onda de politicamente correto e de "seja o melhor, seja um vencedor" que invadiu o mundo e fazer as coisas com dedicação, mas com bom-senso. E o fato é, que nesse momento não me cabe a culpa. A escolha de voltar a trabalhar foi minha e preciso fazer com que essas ideias saiam da minha cabeça e que eu me sinta feliz, leve e realizada mesmo sem atingir a perfeição. Porque afinal, felizmente, ninguém é perfeito.

domingo, 31 de janeiro de 2010

PREFÁCIO

Esse ano, na praia, tive uma revelação: a Clara é um ser independente. Até então não tinha percebido. Ela era apenas uma extensão de mim. A quem eu alimentava como alimentava a mim mesma, limpava como limpava a mim mesma e cuidava como se fosse a parte mais preciosa de mim. E pela primeira vez percebi que ela tem uma vida própria e sentei e assisti, como boa espectadora, seu modo de lidar com essa sua vida. Essa percepção começou, eu acho, quando a vi cheia de si adentrando o mar e enfrentando as ondas com decididos mergulhos. Os castelinhos embaixo do guarda-sol ficaram em segundo plano. A mim restou fazer o papel da mãe que fica na areia chamando e gesticulando em direção à praia quando julga que a situação ficou perigosa demais. Entendi que aquilo foi o prefácio da minha vida daqui pra frente: eu só observando de longe as suas escolhas, as suas proezas e seus erros... e fazendo de conta que tenho o controle da situação.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O SONHO ACABOU


Pois é gente... Eu, super feliz e realizada com a minha condição de mãe, dona de casa e madame e fazendo, inclusive, apologia à situação, estou virando a casaca. Semana que vem volto a trabalhar. Mas não se iludam com as aparências, continuo igual, ou seja, continuo adorando ficar mais com a minha filha, ter mais tempo pra mim e pra casa, viver de uma maneira mais tranquila e descompromissada. O que mudou é que a falta de dinheiro começou a incomodar. Quer dizer, pra falar a verdade já tinha começado há algum tempo e vinha assim, tendo seus altos e baixos. Veja bem, me considero uma pessoa nem um pouco consumista, mas não posso negar a minha natureza de mulher e de mãe (e de mãe de menina ainda por cima). Até sabemos que se não comprássemos absolutamente nada pelos próximos cinco anos (dez, quinze, talvez) ainda assim teríamos o que vestir e calçar. Mas daí dizer que não precisamos comprar nada durante todo esse tempo é bem diferente. Deve existir uma explicação biológica pra isso, algo remanescente em nosso DNA, uma característica que um dia fez algum sentido, foi importante pra alguma coisa. Me recuso a acreditar que seja apenas influência do nosso sistema capitalista. Todas as mulheres que conheço são assim. Até as mais desapegadas vez ou outra morrem de vontade de comprar aquela blusinha pelo simples fato dela ser linda! Depois que vira mãe então, todas aquelas roupinhas e sapatinhos parecem perfeitos demais para serem ignorados. E olha que, como eu disse, sou bem controlada na hora de comprar. Penso um milhão de vezes se o que estou comprando vai ser útil, se já não tenho nenhum outro item que tenha exatamente o mesmo uso e quando, mesmo tomando estes cuidados, acontece de comprar uma coisa que será pouco aproveitada me sinto uma verdadeira estúpida. Mas mesmo assim, com todo o meu discurso de “eu não preciso disso pra viver”, que repeti insistentemente para mim mesma ao longo desse ano e meio, acabei fraquejando e me rendendo a tentação do dinheiro. Estou triste por ter que abdicar de tanta coisa boa que a minha vida sem trabalho formal me dava: a tranquilidade e o prazer de estar com a Clara o tempo todo, o trabalho voluntário, as horas de sono a mais, a ausência quase absoluta de estresse. Mas sei que não vai ser de todo o mal. Gosto do meu trabalho e já cheguei a sentir bastante saudade. Foram muitos anos e muito tempo dedicado a ele e, por isso, sinto, de certa forma, que pertenço àquilo. E depois, acho que amadureci durante esse tempo de serenidade. Sei exatamente o que me faz feliz e a que devo dar mais atenção na minha vida. Vou tentar fazer o meu trabalho da melhor forma possível, como sempre fiz, mas espero não carregar mais aquela culpa constante de sempre achar que deveria estar fazendo mais e de achar que estou decepcionando. Aqui, assumo publicamente meu compromisso: vou tentar me valorizar como pessoa e como profissional, ter em mente que estou dando o melhor de mim e voltar para casa de cabeça vazia para aproveitar com qualidade o tempo que terei com minha filha e com meu marido. Espero que dê certo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

BACK TO REALITY




Fim da temporada de praia. Saímos daquela dimensão paralela, aonde a maior preocupação é se vai chover ou não, para voltarmos ao mundo de carros, relógios, obrigações e compromissos. Ficam as saudades, as boas lembranças e a felicidade por saber que ano que vem tem mais.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

FÉRIAS





Férias para mim têm que ter praia e têm que ter família, quanto mais gente melhor. Aqui em casa tem sido assim nos últimos anos. Não temos casa na praia, mas fazemos questão de alugar alguma coisa por, pelo menos, quinze dias. E daí ficamos, meio apinhados, longe da comodidade das nossas casinhas da cidade, mas de bem com a vida. E olha que pra quem me conhece é difícil de acreditar que eu fique de bem com a vida longe do conforto da minha casa. Não que eu tenha muito luxo lá não. Mas é que eu sou levemente neurótica por limpeza e organização e fiz da minha casa quase que um templo em homenagem à arrumação. E é lá que eu fico completamente confortável e segura, onde eu me sinto livre para exercer toda a minha compulsividade. Então, dá para imaginar que nem sempre foi fácil para mim estar em uma casa de praia cheia de gente. Pra falar a verdade, já foi bem difícil. Na minha visão distorcida de pessoa neurótica, esses dias na praia já foram algo próximo ao fim do mundo. Mas, felizmente, a vontade e a alegria de ficar junto com a família e de proporcionar isso para minha filha foram mais fortes (ou talvez a terapia tenha surtido efeito...). O fato é que reconheço que, após alguns anos de sofrimento intenso, finalmente eu peguei o espírito do negócio. Hoje entendo que casa de praia é casa de praia. Tem areia, tem criança lambuzada de protetor espalhando farelo de bolacha e brinquedos pela casa toda, tem gente o tempo todo fazendo alguma coisa na cozinha, tem muita coisa fora do lugar, ou melhor, nem tem lugar para as coisas todas. E entendi que é justamente isso que faz a coisa ficar tão divertida. É isso que faz a gente se sentir verdadeiramente de férias. Na praia a bagunça é permitida e bem vinda e as obrigações devem ser encaradas como meios de atingir o bem estar imediato. A solução de qualquer outra coisa que não seja indispensável no momento deve ser adiada. Assim, nossas temporadas na praia estão ficando cada vez melhores, mais divertidas, mais relaxantes. Todo mundo se ajuda, todo mundo participa, todo mundo se diverte, todo mundo descansa. E boas lembranças vão ficando na vida de cada um de nós.